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domingo, 16 de julho de 2017

texto crítico da exposição CORPÓREOS - SALA INTERIOR PISO 1 (parte 3 de 4)

Layouts Paula Borela.

Nesta sala, as obras bidimensionais são de dois artistas em formação no curso de Artes Visuais da UFU, que se mostram pela primeira vez em uma coletiva na cidade de Uberlândia - Gabriela Dionísio e Diego Campos. E a única obra tridimensional ficou no centro da sala, uma cerâmica (Cláudio Silva: "Corpo": R$250 - VENDIDA) que quebra o padrão de beleza feminina instituída nas mídias. O torso de uma mulher apresenta deformações consideráveis ao colocar o espectador frente a  volumes de barriga e quadril avantajados. Outra questão que podemos notar é em relação a ausência da cabeça, geralmente esculpida nos bustos - o que chama atenção mais uma vez para a negação das formas  encontradas nas capas de revistas, mas bastante comuns entre as mulheres do cotidiano na realidade. Trata-se de um trabalho de 8 anos atrás, mas pelo fato de dialogar com as questões da representação do corpo, fazia todo o sentido sua inserção na mostra intitulada por Paulo Rogério Luciano de Corpóreos. Na definição do dicionário o termo significa aquilo que é relativo ou que pertence ao corpo; que tem corpo, que é material. Geralmente ao consultar um médico endocrinologista somos avaliados através de um padrão internacional chamado IMC, o índice de massa corpórea. Na exposição não estamos preocupados com esse índice, talvez seja mais interessante conhecer um o coeficiente artístico de cada participante. As dimensões dessa obra (31x29x22cm) em relação a escala humana são menores em poucas proporções, tornando-a quase apalpável. Não há reproduções, é uma peça única. 

 


Cerâmica na casa do artista que começou a praticar o desapego com a venda desta obra. De suas 8 obras selecionadas (7 pinturas e 1 escultura) apenas a tridimensional foi colocada à venda. As demais foram expostas com a observação PREÇO SOB CONSULTA, situação  quando o artista não tem certeza do desejo de colocar seus trabalhos em circulação no mercado de arte.



Fase de seleção de obras no ateliê de Dionísio.


Obras instaladas na galeria. Configuração da série "Luto"solicitada pela artista nesta disposição (conjunto de 5 obras à esquerda).

Têmpera vinílica, guache e acrílica sobre papel permeiam a produção pictórica de uma artista que iniciou seus estudos no curso de Letras e que, felizmente, optou por seguir carreira nas artes plásticas. De uma lado uma fase inicial em que a artista investiga as características da situação psicológica da perda de alguém querido/a pela sua morte (Gabriela Dionisio: "Luto" coleção da artista - conjunto de 5 pinturas). Ela  pinta uma mulher - que pode ser outra ou ela mesma...várias mulheres, todas nós passamos pelo luto - com véu preto e emocionalmente abalada. Além do véu o fundo também é predominantemente preto, sem espaço algum para a refração da luz. A luminosidade que chega até o rosto dessa mulher é o luto de maneira fragmentada, em fases sentimentais com valores simbólicos de um "grupo de cores": azul representando a "solidão e a tristeza", preto "morte", vermelho como "amor interrompido"e branco. Quase não vemos esse branco da "pureza e esperança".

Do outro lado, mas de forma tão interessante quanto, a artista continua mostrando sua habilidade composicional mas dessa vez uma única mulher - aparece no canto superior esquerdo da montagem, em preto, branco e cinza - é retratada (Gabriela Dionisio: "Estudo [Coachella] R$120 - VENDIDA). Em sua maioria masculinos, os 6 retratos de uma série de 7 selecionados para esta mostra, são no mínimo andróginos. Apresentam traços ou comportamentos imprecisos, entre masculino e feminino. Um deleite representacional-pictórico nos toca pelas pinturas de Dionisio e nos levam a...

Em alguns a artista busca imagens dos bastidores de desfiles de moda (Gabriela Dionisio: "Garoto de vermelho" R$180). Em outros aparece uma referência de seus estudos, uma celebridade na área da literatura (Gabriela Dionisio: "Franz Kafka" R$150). Prática comum na arte contemporânea, fotos são usadas pelos artistas como referência para a pintura , mas aqui o resultado em que Dionisio chega tem um diferencial: são indivíduos que não se sobrepõe uns aos outros, estão lado a lado, pareados horizontalmente. Poderiam ser todos chamados de "Daniel" nas palavras da artista. No entanto a ideia não é ser parecida ou fiel com o indivíduo real, com certeza estes indivíduos são do universo de Gabriela Dionísio. No último caso citado, a artista usa sua total liberdade para alterar matizes ou reinventar as misturas das cores, alterando por exemplo o casaco do personagem. 

A escala pictórica pode ser bem próxima do natural, escolha consciente nos retratos em que o rosto desses homens aparecem inclinados: para a direita (Gabriela Dionisio: "Estudo [Blues]" coleção da artista) e para a esquerda (Gabriela Dionisio: "Don't preach" R$200). O último está curiosamente vendado e neste ela optou não deixar as bordas brancas, que geralmente faz antes da pintura, com uma fita crepe. Isso deixa o papel com uma margem de aproximadamente 1cm, fazendo um passe-partout natural, por assim dizer. Bordas leves, conteúdo denso. Outra figura não tão próxima de nós, mas que ainda está nos limites do real, nos fala talvez da relação básica da artista com suas ferramentas e o que ela nos torna visível em uma produção intensa e jovem nas artes (Gabriela Dionisio: "Estudo [Espectrocopia] R$100). A única pintura em posição paisagem/ horizontal foi posicionada dividindo as duas séries na SALA INTERIOR PISO 1. A pintura está numa linha tênue entre os gêneros (Gabriela Dionísio: "Estudo [Descanso]: coleção da artista). 



Foto da galeria com obras montadas na exposição CORPÓREOS. Escultura de Cláudio Silva e pinturas de Gabriela Dionísio.



quinta-feira, 13 de julho de 2017

texto crítico da exposição CORPÓREOS - escada (parte 2 de 4)

   
 Desenhos dos espaços via paintbrush: Paula Borela. Na foto à direita, fotografias do Paulo Rogério que fazem parte do ACERVO PERMANENTE da galeria LUPA. À esquerda pinturas sobre papel de Cleiton Custódio. 


Curadoria é...?
Viabilizar aqueles artistas que estiveram naquela mostra naquele tempo com aquelas obras naquele espaço...?
Ao estar em contato com obras de arte durante 15 dias nas exposições, nós curadores, vivemos um processo bastante orgânico e vivo, imprevisível e incerto. Uma construção de algo feito com cada artista, no final também é uma construção em conjunto se consideramos a exposição toda montada. Com a abertura, que leva um público maior de visitantes para dentro da galeria, as obras são apresentadas - muito prazer em conhecê-las! 

No entanto já as conhecíamos nas palmas das mãos - literalmente. Desde as prospecções e confabulações nos ateliês dos artistas algo de íntimo já estava estabelecido ali. A curadoria permite um aproach especial com as obras dos artistas, um despudor que pode até gerar apego na desmontagem - é cedo pra irem embora! 

Diariamente olhar de novo pra elas instaladas na galeria, ouvir e ver partes diferentes, perceber por ângulos que não estavam sendo explorados até então. Encontrar novos sentidos para o próprio ser.

Podemos ver novidades em termos de pessoas produzindo arte na cidade bem como notamos  pulos em diferentes fases de produção inseridas no contexto particular de um só artista (Ex.: Picasso, fase rosa, fase azul, "Guernica", "Demoiselles d'Avignon", cubismo sintético, analítico). Eu já havia trabalhado com o Pedro PMAQ anteriormente com obras consignadas numa loja de molduras e conhecia parte da sua produção, que na época estava relacionada a cartas de tarô reinventadas. Aos moldes dos seus traços tradicionais deu-se uma mudança significativa na concepção de seus pin-ups do zodíaco para seus personagens finalizados digitalmente nos últimos 2 anos.


 

PPMAQ: "Coleção Pin-ups do Zodíaco"R$60 cada - 10 unidades disponíveis (2 já foram vendidas). 

 

Obras de PPMAQ - adesivos, histórias em quadrinhos, desenhos, livro de artista.

Passando pela porta de entrada (de madeira com vitrais alaranjados e verdes) na casa-galeria , um nicho localizado no vão da escada foi ocupado com trabalhos que nos remetem aos nossos primeiros gibis da infância, mas que criam um curioso contraponto com questões da fase adulta, ligada ao erotismo e a homossexualidade simultaneamente. A priori o espectador se depara com alguns gibis, pastas de desenhos, personagens cômicos representando dez astros do zodíaco em adesivos sobre MDF e percebe outras pessoas manuseando esses objetos. Ao olhar com calma, algumas surpresas boas para alguns e incômodas para outros. Imagens altamente erotizadas de personagens inventados com ereções fantásticas. Novamente a figura masculina está em voga enquanto a feminina quase desaparece. Como a galeria é frequentada por crianças e adolescentes, tivemos o cuidado de negociar com o artista a opção de aviso quanto à censura para menores de 18 anos devido ao conteúdo pornográfico encontrado nos interiores de um HQ impresso em formato magazine ( PPMAQ: "HQ Class Comics Hook-ups - Zahn and Deimos#2" +18, em inglês R$70 - VENDIDO - é possível solicitar mais unidades com o artista; prazo de entrega 30 dias devido frete internacional) assim como em uma de suas pastas com 86 ilustrações produzidas nos últimos 2 anos (PPMAQ: "Pasta portfólio - ilustrações eróticas" R$10 cada desenho / R$200 toda a pasta) e no seu livro de artista (PPMAQ: "Ppmaq Ero Artbook 2016 - vol. 1" R$100). Principalmente por estarem misturados no mesmo nicho. Não haveria sentido algum desmembrar esse conjunto de trabalhos, inclusive porque parte dele foi elaborado e produzido para esta mostra. O cantinho da escada com o vão ficou intimista e permitiu uma leitura e um manuseio agradável para o público. Finalizando a concepção desta montagem incluímos 2 impressões adesivas sobre chapa plástica, cada uma posicionada de um lado do corredor da escada, com algumas páginas dos HQs Frozen Fire (PPMAQ: "Painéis - Frozen Fire" R$60, "HQ Frozen Fire Volume 1 livre, em português - VENDIDO -" e "HQ Frozen Fire Volume 2 livre, em português" R$20). Também achamos importante não desconsiderar sua produção gráfica em papel com lapiseira e caneta nanquim de censura livre justamente para criar um jogo entre o que é proibido e o que não é...(PPMAQ: "Pasta portfólio - desenhos originais."coleção do artista, não está a venda).

Link Class Comics: http://www.classcomics.com/ccn/

Mouse pad no mesmo flow das pastas de desenhos do PPMAQ. 
Visita ao ateliê do artista na fase de seleção das obras.


Subindo as escadas temos 6 pinturas do artista-filósofo de São Bernardo do Campo que mora em Uberlândia há poucos anos e sempre visita o sítio dos pais em Arceburgo/MG. Duas delas (Cleiton Custódio: "Severino" R$200 e "Câncer cinematográfico" R$100) foram usadas como referência para o convite da exposição através das fotos da curadora Borela. O cigarro aparece de duas formas: 1. explícito: vibrando na boca junto ao ato do fumante e 2. implícito: guardado em um maço fechado e pintado com cores chapadas, a escolha desta obra gerou surpresa, nas palavras do próprio autor...era uma pintura não muito boa dentre outras de sua produção; aqui o item deixou de ter a conotação de um mau uso e passou a ser tratado no formato de objeto estético. Comercializado em embalagens diferenciadas de acordo com edições especiais, a versão retratada aqui parece ter sido inspirada nas embalagens dos anos 1980 e 1990. O nome do cigarro faz alusão a intenção da marca em ter níveis e padrões internacionais.

Curiosamente as fotos feitas no ateliê do artista ficaram com um aspecto esverdeado em função da luminosidade e da cor das paredes de seu quarto. Mas na realidade a metade inferior do maço de cigarro do Grupo Souza Cruz é branca, assim como o fundo na pintura em que o artista retrata seu amigo (ver imagem no início do post).


Visita noturna ao ateliê, várias obras e muita conversa com o artista-cantautor.

 

Obras nas paredes do quarto de Custódio. Convite virtual da exposição: arte de Paulo Rogério Luciano. 

Ao lado destas duas obras colocamos 4 outras pinturas de uma série de têmpera ovo (Cleiton Custódio: "Série de 4 naturezas mortas" R$800) que traz à tona a vibe Andy Warhol, que por sinal fazia crítica a sociedade de consumo. Coca-colas, nota de dólar, revólver e um crânio perfurado foram representados sob um fundo azul; mesmo separados parecem estar num mesmo lugar. Que lugar é esse? Estas 6 pinturas preparam o espectador para uma grande seleção com outras 14 pinturas do mesmo autor instaladas na SALA PISO 2 (aguardar próximo post).

 

5 Naturezas-mortas de Cleiton. Foram selecionadas 4 para a mostra CORPÓREOS, ficando de fora a que contém a sopa Campbell. Fotos: Paula Borela.

 
Layout da escada e quadros do Paulo Rogério Luciano - fotografias de postes.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

texto crítico da exposição CORPÓREOS - sala aberta (parte 1 de 4)

 

Desenhos dos espaços via paintbrush: Paula Borela.

A exposição CORPÓREOS, coletiva com 8 artistas sendo a maioria nascida em Uberlândia (5), trouxe à galeria LUPA muitos desafios no que refere-se a montagem e sua expografia. Segunda exposição que é fruto da curadoria conjunta Paula Borela e Paulo Rogério Luciano, ocupamos os espaços de uma casa-galeria com inúmeras obras de arte. De formatos, linguagens, técnicas e possibilidades de leituras diferenciadas, consideramos cada obra em si mas ao mesmo tempo as pensamos em conjunto na exposição. Tivemos público recorde no vernissage ocorrido no dia 27 de Junho e acreditamos que um trabalho contínuo, profissional e coeso entre curadora e galerista oferece credibilidade a todos envolvidos nesse tipo de evento cultural. Ao proporcionar a visita ao público, valorizamos o trabalho dos artistas - que produziram suas obras e optaram por deslocá-las de suas zonas de conforto, seus respetivos ateliês para dentro da galeria. Convém citar que quando um artista participa de uma coletiva, geralmente ele/a não sabe/ não imagina quais obras estarão dialogando com a/s dele/as. De certa forma, uma vernissage coletiva pode ser uma surpresa. Lúdica e agradável, parte das ações curatoriais - como, por exemplo, som ao vivo (mecânico ou não) - gostamos de deixar os artistas à vontade com seus convidados, desfrutando de um momento de relaxamento e prestígio, recompensa. Imprevistos acontecem e por isso trabalhamos com margens de tempo (folgas) para que tudo aconteça tranquilamente. Outro aspecto da curadoria são as visitas que acontecem antes da seleção de obras. A percepção in loco no universo de cada artista, a possibilidade de estar em contato com uma variedade maior de sua produção e as conversas sobre processos criativos contribuem, de fato no estreitamento da relação curador-artista. Às vezes, perceber como é a forma de viver do artista pode ser revelador no sentido do entendimento de suas obras (produtos, matéria visível) e sua filosofia de vida (matéria invisível).

Continuando o modelo de crítica da exposição anterior EM CONTATO, quando citadas, as obras dos artistas aparecerão no seguinte formato: (Nome do Artista: “título” preço da obra).


Na foto de costas, o Carlos Jr (colaborador Lupa -  professor de desenho). Mesa e cadeiras usadas nos cursos de BORDADO e CRIATIVIDADE (profs Lorena e Maria Vidal). Esta mesa - assim como as outras que temos na galeria - é desmontável e também foi utilizada pelo DJ André Paumgartten no vernissage vide foto abaixo.




Pinturas de Cláudio Silva.

A visita começa com onze obras na entrada da galeria (SALA ABERTA - garagem), de dois artistas. Cinco pinturas (Cláudio Silva: “Ação, Transpiração, Reflexão, Conflito e Percepções”: preço sob consulta) de um lado, complementadas com outras duas (Cláudio Silva: “Sensibilidade e Concentração”: preço sob consulta) mostram uma fase recente do artista uberlandense. Não afirma que é ele nos títulos evitando a palavra de autorreferência, mas nos estudos e croquis, revela em seus desenhos que são autorretratos. Com processo que lembra muito o action painting da década de 1940 preconizado pelo norte-americano Jackson Pollock, Silva aqui institui sua própria linguagem através de seus drippings. Das garatujas surgem esse ser que, isolado em cada situação de extremo envolvimento, parece esconder-se por entre linhas e cores do mundo. Observando no total vemos predominâncias do vermelho e azul (1, 4 e 7) assim como do branco (5 e 6). 



Desenhos em A3 de Cláudio Silva. Prospecções da curadora no ateliê do artista. 

Nos desenhos que servem de base para a pintura, o excesso de linhas nem sempre ocupa todo o espaço do papel vide fotos acima, o que nos faz pensar que a exploração pictórica ganhou força assim como a necessidade de expressão do mundo que o rodeia. No papel, o isolamento do entorno é mais evidente se observada a relação figura e fundo, enquanto na pintura existe um caos que expressa uma identidade repetida entre forma e contra-forma. Por mais que cada um dos títulos remetam a variações que traduzem formas do artista de se relacionar com a própria pintura, fica a curiosidade para o espectador: são semelhantes. Entra em cena um ser que habita nas garatujas de seu mundo interior e exterior ao mesmo tempo. Onde ele está e o que está fazendo? Com materiais e resultados distintos, dos croquis para a pintura, a expressão humana é tema encontrado (e procurado) no gesto do artista. São obras que exigem do espectador uma observação minuciosa e prolongada.

 
Detalhe da lateral das telas em branco. Prospecções no atelie da artista.



Pinturas de Gabriela Dionisio (SALA ABERTA).

Outra opção de entrada na galeria seria pela leitura de quatro pinturas, sendo três acrílicas sobre tela que fazem parte de uma série chamada de RETRATOS e um óleo sobre papel (Gabriela Dionisio: "The rest is silence" preço sob consulta, "Indócil" R$300, "Disciplinado" R$380 e "Resignado" R$300). Para a primeira mostra da artista paulistana ela optou por emoldurar um de seus trabalhos selecionados - que a priori estaria pareado com sua série sobre o luto colocada na SALA INTERIOR PISO 1(vide post parte 3 de 4). São quatro homens, figura que a artista explora em meio a predominância dos retratos femininos ao longo das produções artísticas na história da arte. Da esquerda para a direita vemos de forma intercalada dois homens de olhos fechados e retraídos em suas poses ao passo em que outros dois nos olham atentamente. O primeiro parece estar desacordado de modo que seu contato com o espectador torna-se sublimável em uma posição horizontal e direcionada para longe da superfície da tela. Quem são eles e por que usam estes trajes de outrora? O rapaz de lenço vermelho tem uma sombra projetada em cima do seu corpo causando um estranhamento  que confirma ao drama de uma cena interior, que não sabemos se é diurna ou noturna. Já o jovem de terno nos convence de sua disciplina e nos mostra sua mão esquerda afagando seu peito enquanto é pego de surpresa pelo espectador, algo parece o incomodar. Aquele de olhos fechados porém agora em uma pose vertical de fato está retraído mas também demonstra uma intenção em relação a pose. Se está conformado e suporta o mal sem se revoltar, em qual época ele viveu? Será nos dias atuais? O fundo azul que separa a figura do espaço onde habita talvez denote sua intimidade e recolhimento nesse estado de ser e sentir. 

Quase que de forma oposta Silva e Dionísio se comunicam e essa variação de percepções visuais foi parte da proposta expográfica para a entrada na exposição. Afinal são as primeiras obras com as quais o público tem contato. De um lado a abstração e de outro a figuração. Cada um em sua forma essencial e potente, trazendo questionamentos além das apreciações. 



Como parte das ações curatoriais sempre faço um POSTER informativo das obras (layouts) nos espaços da galeria bem como acho importante inserir a foto (imagem de perfil no Facebook) de cada participante, com um breve release das obras expostas, cidade de nascimento e ano.


terça-feira, 13 de junho de 2017

layouts e poster - curadoria exposição EM CONTATO


poster impresso em papel 90x120cm
foto do perfil do artista (cidade e ano de nascimento) seguido de breve release
no rodapé recortes das exposições anteriores (curadorias de João Virmondes e Paulo Rogério Luciano)






LAYOUTS inacabados e alterados ao longo da montagem

sexta-feira, 9 de junho de 2017

texto crítico da exposição EM CONTATO - galeria Lupa (parte 2 SALA DE CIMA)

Acima: espaço SALA DE CIMA - durante a montagem - alterações foram feitas posteriormente. Layout: Paula Borela e Paulo Rogério.

Na montagem desta exposição, em função da grande quantidade de obras - 80 aproximadamente - pensamos em proporcionar uma zona de respiro e pausa para o público, utilizando bancos para assento em frente algumas obras. As salas do espaço são multifuncionais e na medida do possível distribuímos 3 bancos de madeira pela galeria (2 na garagem e 1 na sala de cima). É comum que nos vernissages a quantidade de visitantes seja maior que nos dias cotidianos da galeria, inclusive isso é um fator que pode gerar desconforto visual na apreciação das obras. Alguns preferem visitar a mostra em outros dias mais calmos e tranquilos, sem o frisson típico de uma abertura. O respiro, o silêncio e a pausa podem fazer parte da experiência estética ao visitar uma exposição e consideramos isso no projeto expográfico.

Colocamos um banco na SALA DE CIMA, voltado especificamente para uma obra de grandes dimensões (Bruno Marcitelli: "Pietà" acervo do artista). De 1499 a 2017 muita coisa mudou na sociedade e além do deslocamento espacial, da Basílica de São Pedro até o bairro Tabajaras em Uberlândia, Bruno nos leva a olhar - e a parar para olhar - para uma nova Pietà, em que Maria e Jesus são negros. A irreverência do trabalho está no fato de que o espectador vê algo novo, diferente do que já viu várias vezes em museus e livros (a escultura original) e acreditamos nessa proposta como recurso da contemporaneidade. Esta pintura participou de um projeto entre amigos em que o artista a levou para compor um cenário, nas margens da rodovia entre Uberlândia e Araguari. A tela foi inacreditavelmente apreendida pela PM e danificada nos transportes, de um lugar a outro, bem como durante seu armazenamento quando não estava na posse do artista. Ao trazer a obra para o espaço expositivo o artista cogitou fazer os devidos reparos, mas ao mesmo tempo optamos por manter os danos, pois faz parte da história da tela. O forte olhar e expressão corporal de Maria chama mais atenção causando mais impacto que o corpo do personagem principal em primeiro plano. A releitura é muito expressiva e evoca questionamentos ancorados na História da Arte, atualizando muito sentidos.

O racismo é trazido à tona, assim como a homofobia e o machismo são temáticas complexas que fazem parte das estratégias de interlocução entre esse artista e seu público. Ao lado da pintura posicionamos uma televisão antiga de 20 polegadas que mostra um vídeo produzido por Marcitelli que é apresentado em DVD player, um anacronismo provocado pela ação curadorial. Um teaser em looping acompanha a pintura que faz referência à escultura em mármore de Michelangelo Buonarotti. Na animação vemos uma foto dos personagens com a iminência da morte: o antes e o depois do tiro no peito. Um réquiem de Mozart foi inserido como trilha sonora de fundo e o tempo entre imagem e não-imagem foi repensado para esta situação da exposição. 

LINK do teaser no formato antes da exposição:
https://www.youtube.com/watch?v=q639qaFikS8

No sentido oposto a esta grande tela temos um conjunto de obras que são diametralmente opostas no sentido de suas dimensões e do esforço que o espectador deve realizar com seu aparato retiniano para observá-las. Dentro de 11 passe-partouts pretos chanfrados, estão os desenhos de um artista que é conhecido majoritariamente por sua produção tridimensional (Tião: "Através da lente dos seus olhos" acervo do artista). Os desenhos que chegam a medir 2x2cm e 2x1cm são croquis que foram produzidos entre 1998 e 2015. Os estudos feitos pelo artista serviram de base para peças em concreto celular, argila, gesso entre outros materiais que já foram executadas tridimensionalmente ou que ainda serão. Trabalhos distintos que foram produzidos ao longo de 17 anos, aqui reunidos ganham notadamente um sentido estético característico de outro Tião em sua criação bidimensional, agora revelada. As formas desenhadas sobre papel que lembram pessoas, animais e suas possibilidades híbridas foram identificadas com subtítulos: “jornada, cerimônia, continente, litoral, pescador, paleta, carícias, pé grande, cerrado, miau, pelicano de fraque, coito, carona, ordenha, ombro amigo, picadeiro, Bahia, sossego, manicômio, Himalaia, vergonha, prece, ancião, espelho, epidemia, saci, futuro, cesta, carteado, sedução.” Optamos por não colocar a faixa amarela de retenção entre obra e público na montagem desta obra, pois o objetivo é que o espectador se aproxime ao máximo para fazer sua leitura.

Acima: fase de montagem das obras de Tião.

Acima: obra reservada na vernissage e vendida posteriormente.

Ao lado esquerdo desse conjunto estão 3 gravuras em metal (Tião: “Hora”, “A espera” e “Bordado” R$200,00 cada – sendo que a última foi vendida) do mesmo artista. A simplicidade do traço que forma a coruja está presente também na paisagem com a árvore seca que abriga um único pássaro, cúmplice de um boi magro que pasta na solidão da paisagem; a mulher que borda parece estar concentrada em sua tarefa minuciosa, semelhante à prática do artista que a retrata.

A animação digital que sai da janela e chega até a parede do quintal da casa através de projeção (Alexis: “Labirinto Visual”), é um nano-videoarte em cores preto, vermelho e branco produzido em 2015 que participou da quarta edição do Festival Brasileiro de Nanometragem de Atibaia/SP em 2016. Originalmente o vídeo tem um áudio que segue as imagens, um som que ressalta a mobilidade mecânica do percurso desse OLHO no ambiente digital simulado. Para a exposição o áudio foi cortado.
Um desenho digital que parece um still do vídeo (Alexis: “Labirinto Visual” R$350,00) mostra um olho vermelho no centro, permeado por círculos preenchidos de outros círculos que em uma espécie de universo paralelo no qual todos estão conectados em um labirinto.

LINK do “Labirinto visual” de Alexis (com áudio):
https://www.youtube.com/watch?v=abYAj6nCblw

Temos 3 máscaras em técnicas mistas que estão no vão da escada (vide layout em próximo post) e ainda na SALA DE CIMA temos uma fotografia com uma máscara feita de LEGO usada pelo artista (Alexis: “Fotos 02 máscara” R$400,00). A máscara foi construída para a execução da foto e moldada nas medidas e formato da cabeça do seu criador. Elaborada com um brinquedo educativo, o material oferece ao espectador dois lados: o aspecto lúdico das peças coloridas moduladas que brincamos na infância e, por outro lado, o incômodo visual causado pela sensação de vestir uma máscara rígida que se fecha sem a possibilidade de ser retirada da cabeça, a não ser que seja desmontada, consequentemente desfeita. O objeto torna-se performático nesse sentido.

B U Z Z é o nome de um artista criado em 2015 que vive no Ciberespaço. “Uma identidade artificial criada para interagir artisticamente nas redes sociais”, diz Marcitelli. Ocupando uma das paredes da mesma sala B U Z Z aparece formando um corner com “Pietà” através de pinturas e manipulações digitais, além de apresentar uma gravura em metal que originou a pesquisa com a temática investigada. Celebridades como Walério Araújo, estilista e designer de moda, Lady Gaga, cantora e artista pop e Vera Holtz, atriz, estão reunidos de forma bem-humorada em um espaço onírico que atualiza uma cena religiosa com Madonna, menino Jesus e anjos (B U Z Z: “SANTA HOLTZ & OS WALÉRIOS” R$350,00). A alegria estampada em suas faces pode ser associada à um pouco de deboche e sarcasmo, que provica dúvida sobre a autenticidade dos personagens. Figuras públicas reaparecem (B U Z Z: “DITADURAGAY” R$350,00) nas cabeças degoladas de Bolsonaro e Neymar – sendo o último ocultado nesta versão presente na galeria – com a presença de amigos reinventados que seguram metralhadoras parecendo escoltar a figura central: Waquilla Correia, ator e diretor no Ocupa Teatro, e Luana Julia, atriz em formação, que expõe a nudez de seu busto e levanta a ideia de outro padrão de beleza feminina, que não a midiática que nos é imposta. Ambos estão no entorno daquele sentado no trono de salto alto, que por sua vez veste um cap militar com uma máscara frontal cadavérica. Não se trata de um autorretrato uma vez que é B U Z Z quem pinta Bruno.

 
Acima: prospecções no atelie do artista.

Entre estes dois adesivos sobre PVC, está uma gravura entrevidros antireflexo com moldura dourada clássica que remete à época da Inquisição, na qual pessoas eram queimadas vivas por serem consideradas hereges pela Igreja Católica. A imagem (B U Z Z: “PRIMEIRA GRANDE QUEIMA DE FUNDAMENTALISTAS RELIGIOSOS” R$450,00) também faz referência à obra do artista espanhol Francisco Goya na sua representação dos horrores da época. 

Acima: gravura antes da moldura, no atelie do artista.

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