sexta-feira, 5 de setembro de 2014

incômodo expográfico



No último sábado dia 31/8/14 estive no MUNA - Museu Universitário de Arte em Uberlândia, visitando a exposição "100 ANOS DA PINACOTECA NO MUNA". Participando do minicurso sobre interpretação das obras, pude perceber uma curiosa obra de madeira instalada na parede do museu: a "Natureza-morta" do querido artista araguarino já falecido, Farnese de Andrade.

Movida pelas questões complexas de sua obra como um todo e pela densidade poética de seus objetos, assemblages e criações com diversos materiais sempre tive um tipo especial de curiosidade instigada pelo caráter único de seu trabalho.

Ao deparar-me com a imagem no folheto de divulgação da exposição de cabeça para baixo (rotacionada 180°) fiquei na dúvida se a obra estava instalada upside down na galeria (o que poderia ser considerado um grande equívoco...na hora fiquei pasma, sem acreditar!) ou se a foto da obra havia sido impressa invertida. Busquei a imagem no meu livro da Cosac&Naify e encontrei a mesma imagem, conforme impressa no folder, o que gerou em mim uma sensação confirmada de incômodo expográfico, sobre qual posição seria a "correta". Sei bem que os termos "errado e certo" não são bem-vindos no território da arte. Entendendo também que sua obra é muito mais ampla e profunda não pude me entristecer com a observação do posicionamento da obra no espaço expositivo, uma vez que estava frente à um original do Farnese!

De qualquer maneira, pensando como artista viva, se uma obra minha fosse instalada rotacionada (sem que isso fosse a minha intenção poética) eu questionaria com certeza a modificação da leitura da obra e gostaria que fosse justificada pela equipe de montagem/expografia da galeria.

Faço esse comentário como um alerta para que isso fosse verificado a fim de que tivéssemos certeza da apresentação desta obra, que vemos fixada na parede do museu, enquanto que no livro e na foto que veio do acervo da Pinacoteca a mesma está no chão (percebe-se pela sombra do objeto na foto) e de cabeça para baixo (será que está mesmo? não sei mais, estou confusa).

Mais uma vez friso que não estou limitando o trabalho meramente à sua posição na galeria. A obra de Farnese merece muito respeito e admiração pelas suas questões que ganharam plasticidade no seu conturbado mundo pessoal. Compreendo a amplitude dessas questões de interpretação da imagem pois permitem diversas leituras ao observador de acordo com as estratégias expográficas aplicadas às exposições. Fico preocupada com esses detalhes que me fazem refletir sobre outras obras, outros artistas... por exemplo: e se as obras de Georg Baselitz de repente fossem expostas de cabeça para baixo?!

Existe ainda um segundo ponto que refere-se à apresentação de um objeto tridimensional, que poderia ser circundado, se instalado no chão. Enfim, curiosidades e tropeços no mundo da arte...