terça-feira, 30 de maio de 2017

texto crítico da exposição EM CONTATO - galeria Lupa (parte 1 GARAGEM)


Acima: espaço GARAGEM. Layout: Paula Borela e Paulo Rogério.

Ao me propor fazer a curadoria da exposição que está em cartaz na Galeria Lupa, várias questões foram pensadas em conjunto com o Paulo Rogério, entre elas a elaboração de layouts para ter maior visibilidade das obras enquanto projetadas nos espaços disponíveis para ocupação. Outra questão importante é que a galeria tem um foco comercial, de modo que as obras estão à venda durante o período expositivo. Portanto, gostaria de reforçar aqui os valores monetários das mesmas para possíveis interessados. Isto se dará através de um recurso informativo ao longo do texto conforme a fórmula a seguir: nome do artista entre parênteses, dois pontos seguido do título da obra e seu valor de venda.

Nosso projeto curatorial a longo prazo engloba conceitos e ideias prévias ou seja, antes da chegada ou seleção de obras, por trás do funcionamento da exposição existem premissas norteadoras do processo. Nos bastidores os curadores lançam mão de propostas que de certa forma estejam em consonância com uma temática específica. Curador é o mesmo que cuidador e buscamos desempenhar esse papel diretamente com os artistas e suas obras.

Vale lembrar que esta é a exposição #9 da galeria, as anteriores foram feitas com outros parceiros. Nesta primeira exposição na qual entro como colaboradora a temática foi aberta, livre e de fato, a ausência de um conceito-chave permitiu a organização e o agrupamento de obras de variadas técnicas e estéticas, sem a preocupação com um resultado previamente concebido, o que encaramos como desafio. Os LAYOUTS (plano, arranjo, esquema, design, projeto) entraram então, como forma de agenciamento do espaço expositivo para convivência entre as obras e linguagens dos artistas. Adotamos as medidas das paredes e as dimensões das obras selecionadas como ponto inicial para encaixá-las da melhor forma possível nos espaços da casa. Esta forma existe?

Diante de obstáculos reais e físicos, partimos para a concretização da MONTAGEM considerando fatores próprios de uma galeria de arte que foi adaptada para tal funcionalidade dentro de um espaço previamente ocupado por moradores residenciais que tiveram esta edificação provavelmente realizada nos anos 1970. Suas particularidades arquitetônicas e instalacionais fazem parte da estrutura visual das exposições que aqui ocorrem.

No espaço GARAGEM, na parede 1 encontramos obras que acabam por se comunicar com um ambiente externo da casa que liga sua entrada principal, a entrada da rua e o quintal: folhas de coqueiro pintadas com resina vermelha (Paulo Rogério Luciano: "sem título" R$80,00 cada ou R$500,00 o conjunto com 8) trazem ao espectador uma volumetria orgânica da natureza e causam impacto pelas suas grandes dimensões, a maior das oito mede 170cm x 45cm. Em contraponto à leveza destas folhas, colocamos dois objetos de cerâmica queimada (Vanda Calaça: "Rastros da natureza 1" R$680,00 e "Rastros da natureza 2" R$650,00) pesados e suspensos por cabos de aço na altura da grama: 1,50m e 1,90m em relação ao piso 1 da casa, o que gera um peculiar deslocamento do olhar para o verde da área externa, privilégio da estrutura de uma casa com quintal. Estas obras criaram uma relação de inquietude na observação do público em função do estranhamento de uma forma tão orgânica ao ponto de ser confundida com um casulo de borboleta, porém muito maior em relação de escala e proporção com casulos reais. Entre eles estão 41 peças em cerâmica que se sustentam em uma tela de aço (Vanda Calaça: "Somos semelhantes, temos diferenças, somos um" R$380,00) em formato de sementes, cada uma divida em 2 partes, sendo metade esmaltada em cores variadas e a outra metade na cor crua da argila. Nas extremidades deste primeiro espaço contemplativo encontram-se duas esculturas de parede (Maria Ignez Sampaio: "Emaranhados" - à esquerda R$1.600,00 e "Asas" - à direita R$950,00) em aço. A primeira é mais figurativa e em aço esmaltado, remete às asas de um inseto enquanto a segunda em aço oxidado já possui uma conotação mais abstrata. Produzidas em uma fábrica na cidade mediante solicitação da artista, a qual acompanhou o processo mecânico de oxidação após a elaboração de todo o desenho que dá origem ao corte feito por laser, ambas esculturas dialogam com o peso e a leveza, além de levantar sombras na medida em que a luz se espalha pelas entranhas do próprio material.

Ainda no mesmo espaço, parede 2. Pinturas a óleo sobre tela (Euris Faria: "Amigos" acervo do artista, "Fogão de lenha" R$380,00) são apresentadas com dupla moldura - uma preta interna e uma branca externa - e trazem em espaços bucólicos realistas o retrato de familiares seguidos de uma mulher que cozinha no antiquado fogão, de costas para o observador. Do outro lado da parede, o mesmo cuidado do artista para as escolhas na molduraria: sanduíche de vidro antirreflexo com moldura canaletada branca nas três obras de sua recente produção em óleo sobre papel (Euris Faria "Aflição" R$450,00, "Clemência" R$450,00 e "Alucinação" R$450,00). Agrupamos as obras que parecem ser o retrato de uma mesma pessoa enquanto afastamos um pouco mais a segunda pessoa, que compõe este tríptico rico em expressividade humana. Verificamos uma habilidade técnica explorada de forma mais aguda nestes retratos em relação aos anteriormente citados e os personagens de agora encontram-se isolados em uma realidade à parte, talvez existente apenas na mente e no ato criador do artista. Sua preocupação com o espaço onde estas pessoas habitam - que aqui podemos pensar como fundo, na relação figura e fundo - deixou de ter sentido, como havia feito nas situações campestres para dar ênfase à suas situações emocionais.

Continuando a levar o espectador para reflexões mais voltadas à subjetividade do outro - e por que não da sua própria?! -, posicionamos uma obra composta por duas caixas de feira (Paula Borela: "Mudanças" acervo da artista) ocupadas com objetos que revelam parte da história de vida da artista. Para esta obra em processo, ao longo da montagem da exposição vários testes foram feitos, com objetos trazidos de casa, na tentativa de apropriação e (re)significação de pertences encontrados na relação ARTE E VIDA até a configuração atual. Esculturas de gesso de dedos indicadores em um cubo de acrílico; duas placas de cobre com gravações - matrizes gravura em metal da série Engrenagens e Autorretrato -; uma garrafa de cerveja Bohemia trazida da fábrica em Petrópolis/RJ, safra especial, preenchida com sal grosso; um toca-fitas dos anos 1980 walkman Sony; um porta incenso que recebe varetas acesas diariamente aromatizando o ambiente; uma fotografia da avó da artista datada de 1954 com dedicatória no verso posicionada em um mini-cavalete de pintura e a primeira via da cédula de identidade da artista emoldurada em sanduíche de vidro. Todos os objetos representam fases diferentes de uma vida e se tornam símbolos de algumas práticas cotidianas. As caixas de madeira estão também (re)significadas, pois ao invés de serem usadas na posição horizontal, foram dispostas na posição vertical e fixadas na parede, colaborando para um incômodo de sua leitura, distante do que lhe é habitual.









Acima: obras no totem serão descritas em um próximo post.

Configuração atual da obra "Mudanças".